domingo, 18 de setembro de 2016

"Tapas os caminhos" de Sophia de Mello Breyner Andresen


Tapas os caminhos que vão dar a casa 
Cobres os vidros das janelas 
Recolhes os cães para a cozinha 
Soltas os lobos que saltam as cancelas 

Pões guardas atentos espiando no jardim 
Madrastas nas histórias inventadas 
Anjos do mal voando sem ter fim 
Destróis todas as pistas que nos salvam 

Depois secas a água e deitas fora o pão 
Tiras a esperança 
Rejeitas a matriz 
E quando já só restam os sinais 
Convocas devagar os vendavais 

Se tanto me dói que as coisas passem 
É porque cada instante em mim foi vivo 
Na busca de um bem definitivo 
Em que as coisas de Amor se eternizassem.