quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"Cantar" de Sophia de Mello Breyner Andresen


Tão longo caminho 
E todas as portas 
Tão longo o caminho 
Sua sombra errante 
Sob o sol a pino 
A água de exílio 
Por estradas brancas 
Quanto Passo andado 
País ocupado 
Num quarto fechado 

As portas se fecham 
Fecham-se janelas 
Os gestos se escondem 
Ninguém lhe responde 
Solidão vindima 
E não querem vê-lo 
Encontra silêncio 
Que em sombra tornados 
Naquela cidade 

Quanto passo andado 
Encontrou fechadas 
Como vai sozinho 
Desenha as paredes 
Sob as luas verdes 
É brilhante e fria 
Ou por negras ruas 
Por amor da terra 
Onde o medo impera 

Os olhos se fecham 
As bocas se calam 
Quando ele pergunta 
Só insultos colhe 
O rosto lhe viram 
Seu longo combate 
Silêncio daqueles 
Em monstros se tornam 
Tão poucos os homens.