segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

"O Bicho" de Manuel Bandeira


#PoesiaNaPenumbra

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

"Por um acaso" de Wislawa Szymborska


Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"Musa" de Sophia de Mello Breyner Andresen


Aqui me 
sentei quieta 
Com as mãos sobre os joelhos 
Quieta muda secreta 
Passiva como os espelhos 
Musa ensina-me 
o canto 
Imanente e latente 
Eu quero ouvir devagar 
O teu súbito falar 
Que me foge de repente.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

" A Palavra" de Carlos Drummond de Andrade


Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

"Utopia" de Wislawa Szymborska

Ilha onde tudo se torna claro.
Chão sólido debaixo dos pés.
As únicas estradas, aquelas que oferecem acesso.
Arbustos curvam-se sob o peso das provas.
A Árvore das Suposições Válidas cresce aqui
com ramos desembaraçados desde tempos imemoriais.
A Árvore do Entendimento, deslumbrantemente reta e simples,
brota pela primavera chamada Agora Eu Entendi.
Quanto mais espessos os bosques, mais vasta a vista:
o Vale dos Obviamente.
Se algumas dúvidas surgem, o vento as dissipa instantaneamente.
Ecos agitam-se sem citar 
e ansiosamente explicam os segredos dos mundos.
À direita, uma caverna, onde o Significado repousa.
À esquerda, o Lago das Convicções Profundas.
A verdade verte do profundo e move-se para superfície.
Inabaláveis torres da Confiança sobre o vale.
Seus picos oferecem uma excelente vista da Essência das Coisas.
Apesar de seus encantos, a ilha está desabitada, 
e as pegadas fracas espalhadas em suas praias
apontam sem exceção para o mar.
Como se tudo o que você possa fazer aqui é deixar
e mergulhar, para nunca mais voltar, nas profundezas.
Na vida insondável.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

"Poesia" de Sophia de Mello Breyner Andresen


Se todo o ser ao vento abandonamos 
E sem medo nem dó nos destruímos, 
Se morremos em tudo o que sentimos 
E podemos cantar, é porque estamos 
Nus em sangue, embalando a própria dor 
Em frente às madrugadas do amor. 
Quando a manhã brilhar refloriremos 
E a alma possuirá esse esplendor 
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem. 
No interior das coisas canto nua. 

Aqui livre sou eu — eco da lua 
E dos jardins, os gestos recebidos 
E o tumulto dos gestos pressentidos 
Aqui sou eu em tudo quanto amei. 

Não pelo meu ser que só atravessei, 
Não pelo meu rumor que só perdi, 
Não pelos incertos atos que vivi, 

Mas por tudo de quanto ressoei 
E em cujo amor de amor me eternizei.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"Deus Triste" de Carlos Drummond de Andrade


Deus é triste.

Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.

A solidão de Deus é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.
A tristeza de Deus é como Deus: eterna.

Deus criou triste.
Outra fonte não tem a tristeza do homem.


domingo, 2 de outubro de 2016

"Os poemas" de Mario Quintana


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

"O fim e o início" de Wislawa Szymborska

Depois de toda guerra
alguém tem que fazer a faxina.
As coisas não vão
se ajeitar sozinhas.
Alguém tem que tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.
Alguém tem que abrir caminho
pelo lamaçal e as cinzas,
as molas dos sofás,
os cacos de vidro,
os trapos ensanguentados.
Alguém tem que arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém tem que envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.
Não é fotogênico
e leva anos.
Todas as câmeras já foram
para outra guerra.
Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.
Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.
De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.
Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.
Alguém tem que deitar ali
na grama que cobriu
as causas e conseqüências,
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

"As Amoras" de Sophia de Mello Breyner Andresen


O meu país sabe as amoras bravas 
no verão. 
Ninguém ignora que não é grande, 
nem inteligente, nem elegante o meu país, 
mas tem esta voz doce 
de quem acorda cedo para cantar nas silvas. 
Raramente falei do meu país, talvez 
nem goste dele, mas quando um amigo 
me traz amoras bravas 
os seus muros parecem-me brancos, 
reparo que também no meu país o céu é azul.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"Destruição" de Carlos Drummond de Andrade


Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.
Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.

domingo, 25 de setembro de 2016

"Fama" de Bruna Lombardi



Nosso caso de amor pode gerar rumores 
mudar o tom do nosso humor 
como o som do liquidificador 
interferindo em nosso som 
e nós que vivemos em contradição 
um pouco de culpa, um muito de tesão 
talvez temamos essa interferência 
talvez isso desate o nosso laço 
os dois em xeque e talvez mate 
ou torne escasso... 
o que nos parecia excesso 
talvez vire o nosso amor do avesso 
e essa intimidade acabe 
please please 
não conte para ninguém o que você sabe. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

"As Três Palavras Mais Estranhas" de Wislawa Szymborska

Quando eu pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando eu pronuncio a palavra Silêncio,
Eu o destruo.
Quando eu pronuncio a palavra Nada,
Eu faço algo que nenhum não-ser pode reter.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"Cantar" de Sophia de Mello Breyner Andresen


Tão longo caminho 
E todas as portas 
Tão longo o caminho 
Sua sombra errante 
Sob o sol a pino 
A água de exílio 
Por estradas brancas 
Quanto Passo andado 
País ocupado 
Num quarto fechado 

As portas se fecham 
Fecham-se janelas 
Os gestos se escondem 
Ninguém lhe responde 
Solidão vindima 
E não querem vê-lo 
Encontra silêncio 
Que em sombra tornados 
Naquela cidade 

Quanto passo andado 
Encontrou fechadas 
Como vai sozinho 
Desenha as paredes 
Sob as luas verdes 
É brilhante e fria 
Ou por negras ruas 
Por amor da terra 
Onde o medo impera 

Os olhos se fecham 
As bocas se calam 
Quando ele pergunta 
Só insultos colhe 
O rosto lhe viram 
Seu longo combate 
Silêncio daqueles 
Em monstros se tornam 
Tão poucos os homens.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Retrato" de Cecilia Meireles


Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas; 
eu não tinha este coração que nem se mostra. 
Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil: 
Em que espelho ficou perdida a minha face?

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

"José" de Carlos Drummond de Andrade


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

domingo, 18 de setembro de 2016

"Tapas os caminhos" de Sophia de Mello Breyner Andresen


Tapas os caminhos que vão dar a casa 
Cobres os vidros das janelas 
Recolhes os cães para a cozinha 
Soltas os lobos que saltam as cancelas 

Pões guardas atentos espiando no jardim 
Madrastas nas histórias inventadas 
Anjos do mal voando sem ter fim 
Destróis todas as pistas que nos salvam 

Depois secas a água e deitas fora o pão 
Tiras a esperança 
Rejeitas a matriz 
E quando já só restam os sinais 
Convocas devagar os vendavais 

Se tanto me dói que as coisas passem 
É porque cada instante em mim foi vivo 
Na busca de um bem definitivo 
Em que as coisas de Amor se eternizassem.

"O prazer da escrita" de Wislawa Szymborska


Por que a palavra corça surge em meio a esse bosque escrito?
Para bebericar água da primavera descrita
cuja superfície copiará seu focinho mole?
Por que ela levanta a cabeça; será que ouve alguma coisa?
Debruçada sobre quatro pernas finas emprestadas da verdade,
ela pica até as orelhas sob os meus dedos.
Silêncio - esta palavra também se agita por toda a página
e parte os ramos
que surgiram a partir da palavra "bosque".
De emboscada, definidas para atacar a página em branco,
estão palavras não muito boas,
garras de cláusulas tão subordinadas
que nunca irão deixá-la ir embora.
Cada gota de tinta contém um suprimento justo
de caçadores, equipados com olhos apertados por trás de suas vistas,
preparados para mergulhar a inclinada caneta a qualquer momento,
cercar a corça e lentamente apontar as suas armas.
Eles se esquecem de que o que está aqui não é vida.
Outras leis, preto no branco, valem.
O piscar de olhos vai demorar tanto quanto eu disser,
e, se eu quiser, será dividido em pequenas eternidades
cheias de balas, paradas em pleno voo.
Nada vai acontecer, a menos que eu diga.
Sem a minha bênção, nem uma folha cairá,
nem uma lâmina de grama irá se dobrar sob aquele pequeno casco. 
Há então um mundo
onde eu governe absolutamente o destino?
Um tempo que eu ligue com cadeias de sinais?
Uma existência tornada interminável sob meu lance?
O prazer da escrita.
O poder de preservação.
Vingança de uma mão mortal.

sábado, 17 de setembro de 2016

A poesia como uma ferramenta de investigação do mundo



Praticamente desconhecida dos brasileiros até o lançamento de “Poemas”, em 2011, a polonesa Wislawa Szymborska rapidamente amealhou um significativo fã-clube. Prêmio Nobel de Literatura em 1996, ela tem um estilo peculiar, uma forma muito particular de usar a poesia como ferramenta de investigação do mundo. Falando diretamente ao leitor, a quem trata como um igual, sua linguagem é simples e próxima da prosa, e embora seus temas sejam muito variados, todos são como que irmanados pelo olhar da poeta, que combina o tom aparentemente informal ao rigor na construção dos versos. 

Escritos entre 1957 e 2012, em sua maioria desprovidos de qualquer adorno, os 85 poemas reunidos em “Um amor feliz” (Companhia das Letras, tradução de Regina Przybycien, 324 pgs. R$ 44,90) reforçam essa impressão de uma autora que incorpora à poesia não exatamente um método científico, mas a inquietação dos cientistas. Muitos poemas partem de uma indagação: uma vez apresentado o problema, verso após verso Szymborska o estuda e descama, até chegar, de forma geralmente inesperada, ao seu núcleo ou solução, que apontam para algum detalhe inusitado da natureza ou algum aspecto assombroso da vida cotidiana. O mesmo procedimento de observação e análise é aplicado a diferentes assuntos, da biologia à História contemporânea, da mitologia greco-romana ao significado do tempo e da memória, das relações afetivas a questões estritamente literárias, da incomunicabilidade entre seres humanos (ou entre seres e coisas) à indiferença do universo diante de nossos pequenos dramas e conflitos.

Capa do livro da polonesa Wislawa SzymborskaEm edição bilíngue, “Um amor feliz” também traz o discurso feito pela escritora ao receber o Nobel, no qual ela fala sobre o ofício do poeta: “O poeta, se é um poeta de verdade, deve repetir constantemente para si mesmo: ‘Não sei’. Cada poema seu é uma tentativa de resposta, mas, assim que ele coloca o ponto final, já o espreita a dúvida, já começa a se dar conta de que aquela é uma resposta temporária e totalmente insuficiente. E assim tenta mais uma vez, e mais outra, e depois os historiadores da literatura juntam com um grande clipe essas sucessivas provas de sua insatisfação consigo mesmo e as chamam de sua obra.”

Nascida em 1923, Szymborska passou a juventude sob um regime comunista, que apoiou nas décadas de 40 e 50, aderindo inclusive às premissas do realismo socialista. Até 1966 foi membro do Partido. A maturidade trouxe a desilusão com as consequências práticas do socialismo real em seu país, e aos poucos sua poesia se afastou, sem trauma nem alarde, de qualquer conteúdo político, ao mesmo tempo em que incorporava um senso de humor e uma ironia muito particulares. Em 1975 assinou a “Carta dos 59”, na qual os principais intelectuais da Polónia protestaram contra a submissão à União Soviética. 

Subvertendo convicções arraigadas, os poemas de Wislawa Szymborska buscam sempre uma compreensão alternativa das coisas, estabelecendo uma lógica e uma ética próprias. Outro aspecto de sua obra a ser destacado é o caráter narrativo de alguns poemas, com cenários, personagens e ação dramática (como em “Acontecimento” e “Medo do palco”). Avessa a badalações, grupelhos e eventos literários, Szymborska morou a vida inteira na Cracóvia, onde escreveu durante décadas numa revista literária. Morreu em 2012, aos 88 anos. 

Em um dos melhores poemas de “Um amor feliz”, Szymborska estabelece um diálogo com seu duplo para interrogar sua identidade e sua relação com o passado: “Adolescente” narra o seu encontro consigo mesma mais jovem, o que lhe permite observar como as duas são diferentes em seus gostos, convicções, interesses e até mesmo na escrita; as duas, contudo, têm algo em comum: o cachecol tricotado pela mãe – sinal de um laço profundo que a passagem do tempo não desfez. O poema termina assim:

          “Na despedida, nada: um sorriso casual
          E nenhuma emoção.

          Só quando some 
          e na pressa esquece o cachecol.

          Um cachecol de pura lã,
          Com listras coloridas,

         Tricotado à mão para ela
          Pela nossa mãe.

          Eu o guardo ainda.”



Fonte: G1
Link: http://g1.globo.com/pop-arte/blog/maquina-de-escrever/post/poesia-como-uma-ferramenta-de-investigacao-do-mundo.html

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

"Tu eras também uma pequena folha" de Pablo Neruda



Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

"Libação" de Elisa Lucinda


É do nascedouro da vida a grandeza. 
É da sua natureza a fartura 
a ploriferação 
os cromossomiais encontros, 
os brotos os processos caules, 
os processos sementes 
os processos troncos, 
os processos flores, 
são suas mais finas dores

As conseqüências cachos, 
as conseqüências leite, 
as conseqüências folhas 
as conseqüências frutos, 
são suas cores mais belas

É da substância do átomo 
ser partível produtivo ativo e gerador 
Tudo é no seu âmago e início, 
patrício da riqueza, solstício da realeza

É da vocação da vida a beleza 
e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la 
com nossos minúsculos gestos ratos 
nossos fatos apinhados de pequenezas, 
cabe a nós enchê-la, 
cheio que é o seu princípio

Todo vazio é grávido desse benevolente risco 
todo presente é guarnecido 
do estado potencial de futuro

Peço ao ano-novo 
aos deuses do calendário 
aos orixás das transformações: 
nos livrem do infértil da ninharia 
nos protejam da vaidade burra 
da vaidade "minha" desumana sozinha 
Nos livrem da ânsia voraz 
daquilo que ao nos aumentar 
nos amesquinha.

A vida não tem ensaio 
mas tem novas chances

Viva a burilação eterna, a possibilidade: 
o esmeril dos dissabores! 
Abaixo o estéril arrependimento 
a duração inútil dos rancores

Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos: 
a vida inédita pela frente 
e a virgindade dos dias que virão!

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"Motivo" de Cecilia Meireles


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias, 
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico, 
se permaneço ou me desfaço, 
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

"A Rosa de Hiroxima" de Vinicius de Moraes



Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida.
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

"Das Utopias" de Mário Quintana


Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las... 
Que tristes os caminhos, se não fora 
a magica presença das estrelas!