segunda-feira, 22 de maio de 2017

"Segredo" de Henriqueta Lisboa



Andorinha no fio
escutou um segredo.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.

E o sino bem alto
Delém-dem
Delém-dem
Delém-dem
Delém-dem!

Toda a cidade
ficou sabendo.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Acontecências: "Sem Lenço e sem Documento" por Vilma Belfort

SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO 

Acontecem coisas todos os dias. Berra o noticiário sem que talvez estejamos atentos, a voz do locutor é assídua e ácida em revelar os fatos do mundo e sem querer estamos nesse emaranhado de ocorrências. acontecem coisas todos os dias desde os primórdios... Ganhamos uma inesperada companhia, sempre , de algo imprevisto e estarrecedor pelo qual exclamamos surpresos. E, tudo, repentinamente,meus olhos desviaram a atenção para uma banal acontecimento galvanizado por autoridades,políticos e etc. Esta seria minha surpreendente companhia matinal de um artigo de um grande jornal da capital. Sim, estou na capital,estou querendo ou sem querer no mundo, aquilo veio em minha direção num espalmar de páginas abertas. Policiais do Rio de Janeiro, recentemente, foram vistos em uma operação policial usando “um lenço palestino”, o “keffiyeh”, este era o busílis da questão. E, isto gerou uma imensa polêmica, a substituição desse lenço pelo balaclava(toca ninja). Até o cônsul de Israel lamentou o uso associado à violência e ao povo palestino. Mas este mesmo lenço é um símbolo visto em protestos no mundo inteiro.O cônsul ainda frisou que este “símbolo” só deveria ser usado respeitosamente em causas de interesse palestino. Apenas um lenço....Nefertiti foi a primeira mulher na História a usar um lenço em 1350 A.C.o misterioso lenço que a rainha usava era conhecido como “khat. Paradoxos à parte, lenços de todas as origens,portugueses, franceses,espanhóis,um lenço o pivô de uma página inteira de um jornal, afora a barbárie que se vive, o lenço noticioso como reportagem de primeira. Como o homem é cruel com suas próprias ideias,como um adereço de defesa,de protetividade pode clamar opiniões diversas e inversas,como tudo pode gerar ódio,apenas um lenço...Queria eu estar saindo do mar, sem lenço e sem documento...

terça-feira, 16 de maio de 2017

"Dia que Virá" de Virginia Tamanini


DÍA QUE VIRÁ

Meu fílho:

Quando um dia procurares
e não me vires mais;
quando a certeza de minha morte
entrar em tua alma
e fizer teu coração doer
— dá-me teu pranto
que através dele estarei contigo.
Nas lágrimas que chorares
chorarei;
porque a minha dor,
a dor de minha voz não ser ouvida,
a dor de não poder te consolar
será tão grande,
tão esmagadora,
tão penetrante e forte,
que ao sentir-me afastada
do caminho de tua vida,
hei de morrer de novo
após a morte!



domingo, 14 de maio de 2017

"Por enquanto eu sou pequeno" de Pedro Bandeira



Por enquanto sou pequeno,
mas vou aprender a ler:
já sei ler palavra inteira,
leio pra cima, e pra baixo,
e plantando bananeira!

Por enquanto sou pequeno,
uma coisa vou dizer,
com certeza e alegria:
sei que nunca vou esquecer
da beleza da poesia!


quinta-feira, 11 de maio de 2017

"Os sete gatinhos" de Pedro Bandeira


Bete tem sete gatinhos.
Um foi tomar leite, ficaram seis.
Bete tem seis gatinhos.
Um fugiu do cão, ficaram cinco.
Bete tem cinco gatinhos.
Um foi pegar o rato, ficaram quatro.
Bete tem quatro gatinhos.
Um foi comer mingau, ficaram três.

Bete tem três gatinhos.
Um foi ao cinema, ficaram dois.
Bete tem dois gatinhos.
Um foi tomar banho, ficou só um.

Bete tem um gatinho,
tem um gatinho só.
Bete vai dar carinho
pra ele o nome Filó.

Filó é fofo e dengoso,
gostoso de se agradar.
Nem adianta pedir,
esse ninguém vai levar!


segunda-feira, 8 de maio de 2017

"Amor Violeta" de Adélia Prado


O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

"A Rua dos Cataventos" de Mário Quintana



Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

"O cântico da Terra" de Cora Coralina


Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

"Sedução" de Adélia Prado



A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

terça-feira, 2 de maio de 2017

"Autopsicografia" de Fernando Pessoa


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A hora de Clarice Lispector

RAPHAEL VIDIGAL

“Minha alma tem o peso da luz”. A anotação aparece “irregular, riscada, começa em preto e termina no azul, em um pedaço de papel de correspondência. É algo muito vivo”, define Pedro Vasquez. A declaração refere-se ao manuscrito citado acima, um dentre os vários presentes na edição organizada por Vasquez em comemoração pelos 40 anos de “A Hora da Estrela”, clássico de Clarice Lispector. A primeira publicação, de 1977, tornou-se a última realizada enquanto a escritora era viva. “O livro saiu em outubro, e ela morreu menos de dois meses depois, um dia antes de seu aniversário, em 9 de dezembro”, relata Vasquez. Ele considera essa informação “importante para se compreender o livro”.

“Clarice já estava doente (morreu vítima de um câncer no ovário) e tinha consciência da proximidade da morte”, considera. Esse fato, para Vasquez, “torna ainda mais especial o relançamento”. “São duas datas coincidentes; a publicação de seu livro mais famoso é também a sua despedida”, salienta.

Ensaios. Como se não bastasse, a iniciativa da Editora Rocco reúne, pela primeira vez, seis ensaios que analisam a obra, escritos por autores de diferentes nacionalidades. “Procuramos essa diversidade, já que toda obra da Clarice nos permite interpretações múltiplas”, analisa o organizador. “E não é só a questão geográfica que se impõe, o fundamental é que são todas visões muito amplas. Elas não delimitam o olhar, ao contrário, nos oferecem novas possibilidades para a reflexão”, avalia.

Pedro Vasquez dá como exemplos dois casos, cada um de uma época distinta. “O ensaio do (ex-ministro)Eduardo Portella foi escrito em 1977 a pedido da própria Clarice e utilizado por ela na introdução. Ele segue uma linha mais acadêmica. Por outro lado, o Colm Tóibín (escritor irlandês) apresenta um estilo mais descolado e contemporâneo”, compara.

A eles reúnem-se os textos das brasileiras Clarisse Fukelman e Nadia Gotlib, da francesa Hélène Cixous e da argentina Florencia Garramuño. “Conseguimos traçar um panorama amplo de uma obra que é cada vez mais lida no mundo todo. Isso revela sua atemporalidade temática e a profundidade desta poesia em forma de prosa. A Clarice é diferente para cada um porque fala à alma de todos”, sustenta.

Narrativa. A história narra as desventuras de Macabéa, uma nordestina de origem pobre que parte em busca de melhores oportunidades no Rio de Janeiro. A trama é narrada por Rodrigo S.M., que, de acordo com Vasquez, é “desautorizado pela própria Clarice. Este livro é fantástico por esse caráter dual, com linhas paralelas de narrativa que se sobrepõem”. A fim de reforçar a tese, o organizador cita “as diversas opções de título que ela apresenta na primeira página, a presença ambígua deste narrador masculino e outros mecanismos conhecidos da sua escrita, como a metalinguagem”. Embora ela não tenha passado despercebida por público e crítica em sua época, Vasquez oferece um dado efetivo que comprova o quanto a aclamação à escritora cresceu após sua morte. “Ela não tinha muitos recursos financeiros, tanto que morreu em um hospital público”, conclui. 


Fonte: O Tempo

"Amor Feinho" de Adélia Prado



Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

"Por um acaso" de Wislawa Szymborska


Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"Musa" de Sophia de Mello Breyner Andresen


Aqui me 
sentei quieta 
Com as mãos sobre os joelhos 
Quieta muda secreta 
Passiva como os espelhos 
Musa ensina-me 
o canto 
Imanente e latente 
Eu quero ouvir devagar 
O teu súbito falar 
Que me foge de repente.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

" A Palavra" de Carlos Drummond de Andrade


Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

"Utopia" de Wislawa Szymborska

Ilha onde tudo se torna claro.
Chão sólido debaixo dos pés.
As únicas estradas, aquelas que oferecem acesso.
Arbustos curvam-se sob o peso das provas.
A Árvore das Suposições Válidas cresce aqui
com ramos desembaraçados desde tempos imemoriais.
A Árvore do Entendimento, deslumbrantemente reta e simples,
brota pela primavera chamada Agora Eu Entendi.
Quanto mais espessos os bosques, mais vasta a vista:
o Vale dos Obviamente.
Se algumas dúvidas surgem, o vento as dissipa instantaneamente.
Ecos agitam-se sem citar 
e ansiosamente explicam os segredos dos mundos.
À direita, uma caverna, onde o Significado repousa.
À esquerda, o Lago das Convicções Profundas.
A verdade verte do profundo e move-se para superfície.
Inabaláveis torres da Confiança sobre o vale.
Seus picos oferecem uma excelente vista da Essência das Coisas.
Apesar de seus encantos, a ilha está desabitada, 
e as pegadas fracas espalhadas em suas praias
apontam sem exceção para o mar.
Como se tudo o que você possa fazer aqui é deixar
e mergulhar, para nunca mais voltar, nas profundezas.
Na vida insondável.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

"Poesia" de Sophia de Mello Breyner Andresen


Se todo o ser ao vento abandonamos 
E sem medo nem dó nos destruímos, 
Se morremos em tudo o que sentimos 
E podemos cantar, é porque estamos 
Nus em sangue, embalando a própria dor 
Em frente às madrugadas do amor. 
Quando a manhã brilhar refloriremos 
E a alma possuirá esse esplendor 
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem. 
No interior das coisas canto nua. 

Aqui livre sou eu — eco da lua 
E dos jardins, os gestos recebidos 
E o tumulto dos gestos pressentidos 
Aqui sou eu em tudo quanto amei. 

Não pelo meu ser que só atravessei, 
Não pelo meu rumor que só perdi, 
Não pelos incertos atos que vivi, 

Mas por tudo de quanto ressoei 
E em cujo amor de amor me eternizei.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"Deus Triste" de Carlos Drummond de Andrade


Deus é triste.

Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.

A solidão de Deus é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.
A tristeza de Deus é como Deus: eterna.

Deus criou triste.
Outra fonte não tem a tristeza do homem.


domingo, 2 de outubro de 2016

"Os poemas" de Mario Quintana


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

"O fim e o início" de Wislawa Szymborska

Depois de toda guerra
alguém tem que fazer a faxina.
As coisas não vão
se ajeitar sozinhas.
Alguém tem que tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.
Alguém tem que abrir caminho
pelo lamaçal e as cinzas,
as molas dos sofás,
os cacos de vidro,
os trapos ensanguentados.
Alguém tem que arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém tem que envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.
Não é fotogênico
e leva anos.
Todas as câmeras já foram
para outra guerra.
Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.
Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.
De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.
Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.
Alguém tem que deitar ali
na grama que cobriu
as causas e conseqüências,
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

"As Amoras" de Sophia de Mello Breyner Andresen


O meu país sabe as amoras bravas 
no verão. 
Ninguém ignora que não é grande, 
nem inteligente, nem elegante o meu país, 
mas tem esta voz doce 
de quem acorda cedo para cantar nas silvas. 
Raramente falei do meu país, talvez 
nem goste dele, mas quando um amigo 
me traz amoras bravas 
os seus muros parecem-me brancos, 
reparo que também no meu país o céu é azul.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"Destruição" de Carlos Drummond de Andrade


Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.
Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.

domingo, 25 de setembro de 2016

"Fama" de Bruna Lombardi



Nosso caso de amor pode gerar rumores 
mudar o tom do nosso humor 
como o som do liquidificador 
interferindo em nosso som 
e nós que vivemos em contradição 
um pouco de culpa, um muito de tesão 
talvez temamos essa interferência 
talvez isso desate o nosso laço 
os dois em xeque e talvez mate 
ou torne escasso... 
o que nos parecia excesso 
talvez vire o nosso amor do avesso 
e essa intimidade acabe 
please please 
não conte para ninguém o que você sabe.