terça-feira, 22 de agosto de 2017

"Impressionista" de Adélia Prado



Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Coraçãozinho" de Henriqueta Lisboa



Coraçãozinho que bate
tic-tic
Relóginho do papai
tic-tac
Vamos fazer uma troca?
tic-tic-tic-tac
Relógio fica comigo
tic-tic
dou coração a Papai
tic-tic-tac.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"Ela é Diferente" de Virginia Tamanini


ELA É DIFERENTE

Você conhece Vitória?
venha ver
que vai gostar.
É uma ilha bonita
com seu penedo gigante
se alevantando do mar.

Também cidade-progresso
de arranha céus dominantes
e que tem um tubarão
que aqui não come gente,
mastigando eternamente
o oligisto desfeito
cujo pó deve Ter asas
pois vem pousar, sem direito,
nos umbrais de nossas casas.

Uma coisa me aborrece:
nosso tempo é repartido,
relógio manda na gente,
não há mais tempo pra nada,
a vida agora é correr.
ninguém pode descansar.

E o povo se empurra
dizendo ter pressa
querendo chegar.
E às vezes não chega
nem mais vai voltar.
Os ônibus trançam
nas ruas estreitas
e os carros afoitos
se juntam se amassam
tentando avançar.
E às vezes nem chegam
a ultrapassar.
Eu fico pensando...
Vitória de ontem
Vitória de hoje
qual delas se ajusta
ao meu coração?

Ai que saudades
Do bondinho "Circular"!
Na Praça Oito a rodinha
de intelectuais sorrindo
e tirando o chapéu
ao cumprimentar.

Bons dias aqueles,
tranqüilos, de paz.
E a gente passando
e a gente sorrindo
e a gente vivendo...

Menino gritando
vendendo jornal

- Diáario! Gazeeeta! Olha a Gazeeeta!

(E fazia careta)
Moleque safado
mas era engraçado
e a gente parava
comprava o jornal.
Os olhos buscavam
notícias do dia.
Por isso uma vez
fiquei espantada
ao ler o que lia:
- Foi morto o Cauê
na Zona da Mata
de Minas Gerais.
Venderam seu todo
de pura hematita,
navios estrangeiros
virão carregar.
Vitória cresceu pequena
num estranho paradoxo...
E sendo grande e pequena
é fácil de entender.
Uma terra diferente,
bonita, rica, atraente,
só um tanto original.
E nesse barulho todo
de trabalho e confusão,
nos manjando pouco a pouco
tremenda poluição...
Mas isto não será nada,
vamos ganhar esta guerra
pois o mal também se acaba.
Como nos tempos de outrora
há de novo ressurgir
o céu limpo, a claridade,
a beleza, a paz, o amor,
neste chão que é minha terra
- minha terra capixaba! 



segunda-feira, 24 de julho de 2017

"Com licença poética" de Adélia Prado



Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

sexta-feira, 30 de junho de 2017

quinta-feira, 29 de junho de 2017

"Obrigado, mamãe!" de Pedro Bandeira



Hoje é o melhor dia do ano,
É um dia especial.
É mais que aniversário!
Hoje é o Dia das Mães!
É tão bom quanto o Natal!

Vou muito bem na escola
E não fiz nada de errado
Pra ter que bajular.
Então deve ser verdade
Isso que eu quero falar:

Obrigado, mamãe,
Pelas noites mal dormidas,
Pelas horas tão sofridas
Que você me dedicou.

Obrigado, mamãe,
Por esse amor tão profundo,
Por me ter posto no mundo,
Por fazer tudo o que eu sou.

Muito obrigado, mamãe!
Obrigado por seu carinho,
Por todo esse amor, todinho,
Que você deu para mim...
Obrigado, mamãe...~


terça-feira, 27 de junho de 2017

"Ciranda de mariposas" de Henriqueta Lisboa


Vamos todos cirandar
ciranda de mariposas.
Mariposas na vidraça
são jóias, são brincos de ouro.

Ai! poeira de ouro translúcida
bailando em torno da lâmpada.
Ai! fulgurantes espelhos
refletindo asas que dançam.

Estrelas são mariposas
(faz tanto frio na rua!)
batem asas de esperança
contra as vidraças da lua.


quarta-feira, 21 de junho de 2017

"Segunda canção de muito longe" de Mário Quintana



Havia um corredor que fazia cotovelo:
Um mistério encanando com outro mistério, no escuro…
Mas vamos fechar os olhos
E pensar numa outra cousa…

Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe,
Puxando a água fresca e profunda.
Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas.
Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros,
E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões.

Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
Havia os azulejos, o muro do quintal, que limitava o mundo,
Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas…
Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos…
As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros,
O chiar das chaleiras…

Onde andará agora o pince-nez da tia Tula
Que ela não achava nunca?
A pobre não chegou a terminar o Toutinegra do Moinho,
Que saía em folhetim no Correio do Povo!…
A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro.
Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído.
E ela nem se voltou para trás!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

"Para o Zé" de Adélia Prado



Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.

terça-feira, 13 de junho de 2017

"Aninha e suas pedras" de Cora Coralina



Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.




quinta-feira, 1 de junho de 2017

"Do amoroso esquecimento" de Mário Quintana



Eu agora — que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

segunda-feira, 29 de maio de 2017

"Agora, ó José" de Adélia Prado



É teu destino, ó José,

a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
O que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”
“Tu és pedra e sobre esta pedra”.
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
Dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

"Mulher da vida" de Cora Coralina



Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.


terça-feira, 23 de maio de 2017

"Eu vim me despedir" de Virginia Tamanini


EU VIM ME DESPEDIR

Daqui olhando o espaço e a costa em fora,
É tão maravilhoso o que diviso,
Que creio ser assim o Paraíso,
Nem posso de outra forma o imaginar!

Por isso penso que Nossa Senhora,
Fugindo ao sopé, quis de improviso
Aparecer aqui, deixando o aviso
Da sua escolha para vir morar.

Sobre esta penha, sinto o pensamento
Arrebatado pela voz do vento,
E meus sentidos já não são mais meus.
Ao pé da rocha, se distende o mar...
Meus olhos descem para contemplar,
Minha alma sobe, para estar com Deus. 



segunda-feira, 22 de maio de 2017

"Segredo" de Henriqueta Lisboa



Andorinha no fio
escutou um segredo.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.

E o sino bem alto
Delém-dem
Delém-dem
Delém-dem
Delém-dem!

Toda a cidade
ficou sabendo.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Acontecências: "Sem Lenço e sem Documento" por Vilma Belfort

SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO 

Acontecem coisas todos os dias. Berra o noticiário sem que talvez estejamos atentos, a voz do locutor é assídua e ácida em revelar os fatos do mundo e sem querer estamos nesse emaranhado de ocorrências. acontecem coisas todos os dias desde os primórdios... Ganhamos uma inesperada companhia, sempre , de algo imprevisto e estarrecedor pelo qual exclamamos surpresos. E, tudo, repentinamente,meus olhos desviaram a atenção para uma banal acontecimento galvanizado por autoridades,políticos e etc. Esta seria minha surpreendente companhia matinal de um artigo de um grande jornal da capital. Sim, estou na capital,estou querendo ou sem querer no mundo, aquilo veio em minha direção num espalmar de páginas abertas. Policiais do Rio de Janeiro, recentemente, foram vistos em uma operação policial usando “um lenço palestino”, o “keffiyeh”, este era o busílis da questão. E, isto gerou uma imensa polêmica, a substituição desse lenço pelo balaclava(toca ninja). Até o cônsul de Israel lamentou o uso associado à violência e ao povo palestino. Mas este mesmo lenço é um símbolo visto em protestos no mundo inteiro.O cônsul ainda frisou que este “símbolo” só deveria ser usado respeitosamente em causas de interesse palestino. Apenas um lenço....Nefertiti foi a primeira mulher na História a usar um lenço em 1350 A.C.o misterioso lenço que a rainha usava era conhecido como “khat. Paradoxos à parte, lenços de todas as origens,portugueses, franceses,espanhóis,um lenço o pivô de uma página inteira de um jornal, afora a barbárie que se vive, o lenço noticioso como reportagem de primeira. Como o homem é cruel com suas próprias ideias,como um adereço de defesa,de protetividade pode clamar opiniões diversas e inversas,como tudo pode gerar ódio,apenas um lenço...Queria eu estar saindo do mar, sem lenço e sem documento...

terça-feira, 16 de maio de 2017

"Dia que Virá" de Virginia Tamanini


DÍA QUE VIRÁ

Meu fílho:

Quando um dia procurares
e não me vires mais;
quando a certeza de minha morte
entrar em tua alma
e fizer teu coração doer
— dá-me teu pranto
que através dele estarei contigo.
Nas lágrimas que chorares
chorarei;
porque a minha dor,
a dor de minha voz não ser ouvida,
a dor de não poder te consolar
será tão grande,
tão esmagadora,
tão penetrante e forte,
que ao sentir-me afastada
do caminho de tua vida,
hei de morrer de novo
após a morte!



domingo, 14 de maio de 2017

"Por enquanto eu sou pequeno" de Pedro Bandeira



Por enquanto sou pequeno,
mas vou aprender a ler:
já sei ler palavra inteira,
leio pra cima, e pra baixo,
e plantando bananeira!

Por enquanto sou pequeno,
uma coisa vou dizer,
com certeza e alegria:
sei que nunca vou esquecer
da beleza da poesia!


quinta-feira, 11 de maio de 2017

"Os sete gatinhos" de Pedro Bandeira


Bete tem sete gatinhos.
Um foi tomar leite, ficaram seis.
Bete tem seis gatinhos.
Um fugiu do cão, ficaram cinco.
Bete tem cinco gatinhos.
Um foi pegar o rato, ficaram quatro.
Bete tem quatro gatinhos.
Um foi comer mingau, ficaram três.

Bete tem três gatinhos.
Um foi ao cinema, ficaram dois.
Bete tem dois gatinhos.
Um foi tomar banho, ficou só um.

Bete tem um gatinho,
tem um gatinho só.
Bete vai dar carinho
pra ele o nome Filó.

Filó é fofo e dengoso,
gostoso de se agradar.
Nem adianta pedir,
esse ninguém vai levar!


segunda-feira, 8 de maio de 2017

"Amor Violeta" de Adélia Prado


O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

"A Rua dos Cataventos" de Mário Quintana



Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

"O cântico da Terra" de Cora Coralina


Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

"Sedução" de Adélia Prado



A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

terça-feira, 2 de maio de 2017

"Autopsicografia" de Fernando Pessoa


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.